domingo, 12 de setembro de 2010

E para desconversar, nada melhor que a boa poesia de Adélia

Foto: Diomício Gomes

Adélia Prado é mineira. De sorriso doce, não tem nada da Hebe (ao contrário), mas é uma gracinha. Não é de percorrer estradas e pagar pedágios, mas é de fazer seus próprios caminhos. Inventiva e jovem, Adélia é uma das melhores coisas que já aconteceram. Recomendo!

A formalística

O poeta cerebral tomou café sem açúcar
e foi pro gabinete concentrar-se.
Seu lápis é um bisturi
que ele afia na pedra,
na pedra calcinada das palavras,
imagem que elegeu porque ama a dificuldade,
o efeito respeitoso que produz
seu trato com o dicionário.
Faz três horas já que estuma as musas.
O dia arde. Seu prepúcio coça.
Daqui a pouco começam a fosforescer coisas no mato.
A serva de Deus sai de sua cela à noite
e caminha na estrada,

passeia porque Deus quis passear
e ela caminha.
O jovem poeta,
fedendo a suicídio e glória,
rouba de todos nós e nem assina:
‘Deus é impecável’.
As rãs pulam sobressaltadas
e o pelejador não entende,
quer escrever as coisas com as palavras.

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