Hoje, embora Natal e noite estrelada
uma mulher está triste
De sua pálpebra borrada de rímel não escorre lágrima
apenas sumo de vingança
Do vazio de sua casa, do cemitério de sua vida
se põe a arar o seu legado
Rega gravetos em terreno agreste
semeia pedras difamando o azul ensolarado
Fosse outra, os pés cortados e seus joanetes
não aguentariam tamanho peso na consciência
Irascível, porém, ela continua aos quatro ventos
a defenestrar condutas e a esmigalhar a honra
Corajosa, já não respeita os semáforos
e aceita os riscos de derrapar na curva
Infeliz, com o sumiço de seu amo
agora parece perder também o respeito dos filhos
E num sorrir de apatia e tártaro
bebe sua anemia aos goles, perigoso veneno
Atravessa o dia sem a alegria da primavera
e dedica-se ao seu grandessíssimo ofício, do qual se orgulha: ser infeliz
Então, prisioneira de sua própria índole
aos poucos se enforca na língua que aninha o pescoço, seu colar de pérolas
Até que o Menino Deus se compadece
e resolve perdoar o coração excêntrico com um indulto eterno de Natal.

