domingo, 25 de dezembro de 2011

Indulto de Natal

                        por Marcelo De Marco

Hoje, embora Natal e noite estrelada
uma mulher está triste

De sua pálpebra borrada de rímel não escorre lágrima
apenas sumo de vingança

Do vazio de sua casa, do cemitério de sua vida
se põe a arar o seu legado

Rega gravetos em terreno agreste
semeia pedras difamando o azul ensolarado

Fosse outra, os pés cortados e seus joanetes
não aguentariam tamanho peso na consciência

Irascível, porém, ela continua aos quatro ventos
a defenestrar condutas e a esmigalhar a honra

Corajosa, já não respeita os semáforos
e aceita os riscos de derrapar na curva

Infeliz, com o sumiço de seu amo
agora parece perder também o respeito dos filhos

E num sorrir de apatia e tártaro
bebe sua anemia aos goles, perigoso veneno

Atravessa o dia sem a alegria da primavera
e dedica-se ao seu grandessíssimo ofício, do qual se orgulha: ser infeliz

Então, prisioneira de sua própria índole
aos poucos se enforca na língua que aninha o pescoço, seu colar de pérolas
 

Até que o Menino Deus se compadece
e resolve perdoar o coração excêntrico com um indulto eterno de Natal.

sábado, 29 de outubro de 2011

Poética

                                  por Marcelo De Marco

Passeio por dentro do sono
provo dos pomos
negaceio sonhos

ando por fora da ala-
meda
e de vez em quando erro
invertendo os elos
das lexias tônicas
dizendo: ala-meta!

Aparo arestas e recomponho
a letra
pulo
        e ponho palavras sem
alcance
deliro ao lance
perfume extenso da orquídea.

Oh, por favor me digam
qual foi o anjo-esperma suicida
que agradou tanto um óvulo-olfato
e foi para um mesmo alvéolo
potássio, fosfato, curva e linha;
sobrevoou tipo... abelha-rainha
polinizando lua-de-mel no deserto
e em pleno sol fotossintético
fez vôos léxicos no prosaico ar.

in: Guardados na gaveta
Poema de 1998

domingo, 25 de setembro de 2011

Muito óleo sobre tela pro meu gosto

                                 por Marcelo De Marco

Sabiás cantam pela manhã inteira de sol

Um exército de ondas
embola-se na superfície do mar
bramindo natureza pura

O céu é de Deus
e não há dúvida de que ele seja tupinambá,
e aí troveja em Quixadá e
no Oceano percebe-se

Enquanto isso, as águas tentam afogar Moema
como os carros de Faraó
com o gosto do desgosto
da união de Paraguaçu com Caramuru
nos decassílabos egípcios de Durão

No firmamento, relâmpagos fazem
espirais de aço

Fé tupiniquim ateia fogo no mato

A chuva come terra molhada

Para não ficarem atrás
turistas portugueses devoram índias intatas

O Senhor acende sensuais raios no céu
e funda a primeira hidrelétrica no Brasil
 
O amor é para sempre?

In: Guardados na gaveta
poema de 1998

sábado, 24 de setembro de 2011

Água-viva

                                             por Marcelo De Marco

Por enquanto, não sou de nada.
- Mas me provoca!

Inventa qualquer coisa no cume desta montanha russa

Faz carrossel nesta torre confusa da fortaleza de Sebastopol


Brinca em tua tirolesa
                                        escorrega
                                                            atira-te
balança:
                 vem
          iav

Inebria-te com a saliva na língua
pêra, uva, maçã, salada ígnea... croissant

Tenta, assanha, inflama
o rubro pólo dessa pilha de nervos
e aí, então, em segredo
deixa-me o cetro apontar
para fazer-te rainha pelas paredes
no zunzum dos nossos dominós
que, de tão encaixados
se pareçam com abelhas fabricando mel na azeitona.

In: Poesia play
poema de 1998

domingo, 18 de setembro de 2011

Camisa de força

                                   por Marcelo De Marco

Eu aqui
             e você
                          ali.

E nenhum olhar fixo.


Nem mesmo um abraço,
ainda que superficial!

Qualquer gesto fraterno
                                     de despertar conjeturas?

- Nem pensar!

Que dirá um beijar recíproco!

                                                    Você lá, na sua
 eu cá, na minha

nós dois
juntos
numa desumana indiferença.

In: Guardados na gaveta
poema de 1997

Quase

                                          por Marcelo De Marco

Um pouco mais de mim
e você se mostrava por completa,
quem você é,
                        o que pensa,
                                               o que quer.

Mais um detalhe
e você estaria na minha expansão
assombrando o meu descanso
de humano falível
que depois de tantas noites
almeja descansar em seus carinhos.

Mas fazer o quê
se a minha alma retira de mim
esta indiscutível capacidade de amar?

In: Guardados na gaveta
poema de 1997

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

"Lar", da 'artista plástica' Maria Vitória


Minha filha, 4 anos, tem o hábito de me presentear com desenhos - que prometo publicar, a partir de agora, aqui neste espaço. Hoje, sob encomenda, fez com giz de cera e grafite "Lar".

Cometerei a presunção de achar que ela é capaz de captar a essência.

Essa menina leva jeito!

Ana Flor

por Marcelo De Marco

E como em mágica a(manhã):
                            floresce
                                                       creeeeesce


alucinógena-rósea-azul-lilás.


Uma coisa assim seria tóxica
não fosse pólen, lírio-lítio-essência: paz!


E a flor incólume
nem descolore, nem rasga e cessa jamais


Não é mesmo artifício...
esta flor Rosa
de pétala inóxida
                                ante o ceticimo assaz?

Quem disse?!

A flor é Ana,
                              amo-a!

in: Guardados na gaveta
poema de 1997

Palavras cruzadas

por Marcelo De Marco

Procuro não sei o quê...

verei se acho:
 
                            s
                            e
                            t
                            e     p            
                            n     i     g          
                            i     n        o      a
                            f     g            t        s
                            l     o
                            a    s                      
 
perdidos a evaporar-se... átomos na escuridão

E como satélite inútil no espaço
faço aeróbica e abro com(passo)
de palavras em
                                 m             ra
                                      a      b           R A D I C A L
                                        no
 
que sobre skate mergulham no ar
                                    
                                    S           im-
                                    E
                                    T                pul-     
                                   
                                    U                      si-
                                    G
                                    O               o-
                                    F
                                             nan-
                                   do
                                                       

  Onde quer chegar essa poesia
 
V
E
R
T
I
C
A
L

Quer porventura
 
                               transar com a linha de um poema
 
              
H O R I Z O N T A L ? !

in: Poesia-play
poema de 2002

sábado, 3 de setembro de 2011

Severina

Assisti no último dia 31/08, na Secretaria de Educação do Estado, à mesa redonda com Miguel Falcão. Tratou-se de animação a partir dos quadrinhos criados pelo cartunista - numa transposição de linguagem de Morte e Vida Severina, do também pernambucano João Cabral. O belo projeto faz parte da grade de programação da TV Escola.

Em pouco menos de 55 minutos, a animação dá vida ao texto original – sem nenhuma alteração – de João Cabral de Melo Neto, em desenhos feitos a bico de pena. Com o uso de tecnologia 3D (três dimensões), a animação é resultado de uma parceria com a Fundação Joaquim Nabuco. O custo... menos de 1/2 milhão de Reais. Bagatela, quando conferimos do trabalho.

Escrito entre 1954 e 55, o poema, considerado um marco na literatura nacional, narra a trajetória de um migrante nordestino até a cidade de Recife, ainda hoje a mais próspera da região. Com fortes elementos de crítica social, o texto já foi tema de teatro, música, filme, seriado de TV, de história em quadrinhos (leia-se Miguel), e agora, animação.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Terry Eagleaton na cabeceira


Impressionado com a forma palatável e didática de Terry Eagleton. Teoria Literária - uma introdução se trata de manual imprescindível a todos que amam a boa Literatura.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

É osso


Estou num vale de ossos secos - diante dos quadros herméticos de Avalovara. Aqui, então, ponho-me a amealhar repertório a fim de acessar a obra desse mestre da literatura experimental.

Juro degustar a carne!