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sábado, 17 de outubro de 2009

Em homenagem ao Dia do Professor

Foto: Letícia Gomes

Semeador de esperança


A escola, desde muito cedo, representou para mim o espaço para a realização. Era lá onde eu me manifestava, me divertia. Era entre os intervalos que eu escrevia bilhetes com palavras temperadas a gosto: peixe sem espinha, emoções agudas. No dia em que não tinha aula eu ficava melancólico, sorumbático, macambúzio, vagando..., sem nada para fazer; e, numa família de evangélicos xiitas, o pior: sem direito a uma TV para assistir à minha série favorita: Jaspion. Ler era, então, o meu refúgio, era o meu escape. E eu fugia...


Acho que preciso aqui retificar algo, porque confesso que peguei pesado. Meus avós não eram tão autocráticos assim. Meu velho e querido avô, quando estava na cozinha combinando frutas para o seu famoso e indecifrável suco - que tão pretensiosamente chamava sorvete – era de fazer concessões: eu então colava figurinhas, jogava pião com os poucos amigos, brincava de carro, perturbava preces: andava de carrinho de rolimã..., ah!..., quanta saudade: aquela brisa na cara, naquelas ruas estreitas.


Eu também tinha um rádio, velho, e de pilha. Era dele que eu tirava as novidades do esporte. E sem filtrar as hipérboles e os comentários espalhafatosos, imaginava Romário – meu jogador favorito – produzindo aquele elástico, desenhando cambalhotas no ar, vixe!... parindo um gol de bicicleta. Como era bom. E eu conjeturava. Construía estórias. Essas lembranças me levam a concluir o quanto perdi com o advento da tecnologia das TVs de plasma e com a automaticidade da internet.


Hoje, tudo é ali
– na hora, e com toda a nitidez...


Mal acostumado – vejam só – já não fabrico mais estórias.


O sábado e o domingo voam.


Na segunda, a volta à rotina. Duas de História, uma de Religião, uma de OSPB... a última era de Gramática. Espera aí... Gramática não, Português. Para mim, era justamente naquela última aula do dia em que começávamos a semana. Era uma aula aguardada! Instante ímpar: degustação de palavras. Aquela professora tão carrancuda e tão econômica agora abria o livro de Mesquita & Cloder Rivas Martos para sortear o leitor do dia, pela caderneta:


– 18!


– Presente, professora!


– Leitura. Página 106. Unidade 11.


Não se ouvia um grilo.


E com fome, pelo fim da manhã, eu viajava... quando nem sonhava ensinar um dia Português.


Entretanto, inoportunamente, no melhor, o toque estridente e pontual dava cabo ao meu dia na escola.


Contrariado, ajeitava a bolsa, onde guardava os livros com cuidado para não machucá-los.


Me despedia irresoluto da sala e voltava remoendo Diaféria, Lispector, Colasanti, Machado... M-A-N-D-R-Á-G-O-R-A-S!


Já no rumo de casa, eu jogava pedras, quebrava paus, chutava baldes, esmigalhava gravetos, fazia o diabo..., pintava miséria; por diversão e canalhice
– que só agora julgo inocentes – apertava campanhias em pleno inverno e horário de almoço, e corria; me escondia nas esquinas; seguia atalhos. E para encurtar ainda mais o caminho, à beira da estrada pedia bigu, esperava carona e, muitas vezes, o momento certo de amorcegar camionetes, e até veículos pesados: brincava de menino.


Alguns prenunciavam:


– Esse não vai dar pra nada.


Outros diziam:


– Olha que trombadinha! Que maloca! Cuidado! É um perigo!


Mas, nostradamus também erra.


E para provar, vejam (com os próprios olhos): todas as manhãs têm sido claras, e o dia
– embora ensolarado – perfeito a esse trabalho árduo de ourives que – da morfologia à sintaxe, do estilo à semântica – recruta leitores; e aí então costura, aninha, cultiva palavras: semeia esperança.



segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Analgésico Sharapova

Foto: AFP

Calma! Esfriem a cabeça e esqueçam a letra atrasada do carro, as contas vencidas de água, luz e telefone! Mirem Sharapova, sim..., Maria Yuryevna Sharapova. Vejam só se não é a mais excepcional jogadora profissional de tênis! Observem se sua beleza não é demais para uma mulher apenas!

Vamos! Deixemos de lado as amenidades! Aurea Mediocritas! Carpe Diem! Fugere Urbem! Ui, ui ui!

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Independência de quê?


Fotos: Marcelo De Marco

Acabo de vir do desfile cívico no município de Pombos e trago aqui alguns belos registros, em imagens.

Lembrei-me logo do poema Sentimental, de Drummond. E, se neste país não for proíbido pensar..., pensei: Quiçá um dia desfilemos todos - conscientes - em busca de uma legítima e verdadeira INDEPENDÊNCIA. Não esta independência que se parece mais com um simples ritual impensado a que todos os anos, uniformizados, professores e alunos se submetem.

Que todos nós brasileiros acordemos para incutir em nós e em nossos filhos a imprescindível virtude do bem questionar - habilidade esta, que faz de nós, cidadãos, sujeitos autônomos e, de fato, livres: não sendo subjulgados, jamais, intelectual, político e economicamente. Que o nosso Grito do Ipiranga seja, no próximo ano, de uma independência mais lúcida!

terça-feira, 30 de junho de 2009

Aniversário de moi!

Mantedo-me distante do clic da câmera, Patagônia Chilena

Quero me desculpar aqui com os poucos, mas fiéis leitores pela ausência de notícias. É que durante esse período de distância absoluta do universo pontocom estive em férias no Caribe para celebrar, em comemoração privada, meu 28º aniversário.

Informo ainda que durante o tour conheci cidades históricas e destinos deslumbrantes. A peruana Machu Pichu, o belíssimo balneário mexicano de Cancún e o povoado equidistante da argentina Bariloche estão entre os principais endereços.

O passeio em trenós na neve puxados por cães em British Columbia, Canadá foi reconfortante. Naveguei o rio Mekong, no Laos, sem rumo, em uma pequena balsa, e fui parando nas vilas mais encantadoras.

Exótica foi a jornada de camelo pelo Saara, até Merzouga, uma vila no centro do Marrocos. E o cruzeiro enófilo pelo Canal de Borgonha, na França, parando só para conhecer as vinícolas e os vinhedos? Hein?! Hein?! Inesquecível!

Perdi-me pelas ruas e pontes sobre os canais de Amsterdã, de bicicleta, sem dia certo para ir embora. Rodei a Austrália inteirinha em um motorhome alugado – foi hilário!

Atravessar de ônibus a Karakoram Road, a estrada mais alta do mundo, entre a China e o Paquistão - (e uma das mais lentas também, porque cruza uma cordilheira himalaya) fez-me perder todas as fobias.

Caminhei 4 dias na trilha Milford Track, na Nova Zelândia, considerada um dos melhores circuitos de trekking do mundo. Participei de um cruzeiro pelos fiordes da Patagônia chilena, de Puerto Montt e Punta Arenas, Laguna San Rafael e Parque Torres del Paine.

Depois de rodar de lambreta pela Côte d’Azur francesa - em Nice, epicentro da Riviera Francesa, peguei o avião e retornei ao Brasil, e em Juçaral: no coração do éden, revi amigos, e rodeado deles, bebi e sorri inadivertidamente.

É o que agora e sempre desejo também a todos, todos os anos, todos os meses, todos os dias... (inclusive àqueles com os quais não nutro simpatia), porque merecemos! E como diria o velho, calejado e democrático Ulisses: que Deus nos ajude! Que isto (o imponderável) se cumpra! Amém!

terça-feira, 10 de março de 2009

Cartão-Postal nº 3: Macacos me mordam! Outro poste? Não acredito!


Fotos: Marcelo De Marco

O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.

Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.

Este poema – Política Literária – de Carlos Drummond de Andrade foi oferecido ao poeta pernambucano Manuel Bandeira. Tem a ver com poética, com constituição literária, com vaidades e gênios. Entretanto, se a mim fosse dada a liberdade de substituir a palavra “poeta”, poria “político”. Porque da mesmíssima forma, político enviesa, esfarrapa, cantarola, desconversa.

Para fugir à responsabilidade, políticos provincianos dão aos problemas status Federal. Porque sabe que, mais distantes, a cúpula do Planalto não tem como conhecer todos os brasis. É preciso, muitas vezes, que a grande imprensa descortine, aponte e denuncie improbidades administrativas. O município de Manari (PE) é um exemplo recente.

Reconheço, então, que sou uma voz rouca a vagar no deserto. E embora tendo algo a dizer, disponho de poucos interlocutores. Nossas principais forças políticas – objetivamente, aqui em Vitória – sofrem de patologia grave: semianalfabrutismo metastático. Pior, elas nem sabem, e ainda que soubessem interpretariam a enfermidade como elogio numa vida cega, que ainda assim, segue.

Mesmo assim, cometo a audácia de pregar para poucos, desejando que esses poucos multipliquem, reforcem e aperfeiçoem uma ideia aqui dita e lançada. Posiciono-me sempre que vejo um absurdo ou arbitrariedade sendo cometidos em minha cidade. Não ligo para os muxoxos, para as apatias – tampouco para a crítica imbecilizada que tenta desqualificar minhas credenciais de cidadão irrequieto.

Não faz muito tempo, delatei – aqui – um poste plantando no meio da rua a atrapalhar o trânsito da Travessa 1º Maio. Até brinquei, parafraseando um texto do poeta de Itabira. Mas não teve jeito. Nossas “representações” políticas embeveceram-se à luz da ribalta e, tapadas, ignoram as soluções para os problemas mais simples da nossa tão complicada cidade.

Os loteamentos José de Lemos e Colinas Canadá têm sido, realmente, um prato variado e cheio – capaz de causar indigestão. Existe lá, no meio de uma das vias, um monumento construído em ferro e concreto armado – descaradamente, um outro poste – onde a diversão (às escuras, porque não há iluminação) é garantida. De sua casa na paralela Rua da Concentração, Jaqueline Santos, 19, presencia assaltos, e queixa-se.

José Quirino e a esposa, Dona Mª José – rezingam, lamentam e não se conformam com a conta de energia na mão que cobra taxa de iluminação pública. Coincidentemente, no momento em que os fotografo, o carro da concessionária de energia elétrica passeia pelo bairro munido de escadas e alicates, caçando “macacos” e “gatos” só para proteger o seu patrimônio. Enquanto isso, o mais sublime dos patrimônios: a honra e a dignidade do cidadão comum são “objetos” dilapidados.

domingo, 8 de março de 2009

Esse arcebispo não me engana!


Fotos: Divulgação

Como ainda pode a Igreja interferir nas questões de um Estado dito laico?

Com todo carinho que tenho pelos católicos, mas já passou da hora de aceitarmos complacentes a intromissão de uma doutrina tão conservadora e matrona como a de Joseph Ratzinger.

Não é concebível que, desde sempre, se possa – com argumento teológico – aceitar tamanho desrespeito. Os representantes da Igreja deveriam, antes de tudo, precisar cada palavra proferida, pois quando mal colocada – machuca.

O Arcebispo de Recife e Olinda Dom José Cardoso Sobrinho não tinha o direito de dizer o que disse, de fazer o que fez. O sacerdote comete equívoco grave que o desautoriza e que o deslegitima de seu posto.

Não se pode esconder-se atrás do celibato, ignorando a dor de alguém violentado, vilipendiado – não apenas pelo estupro, que por si só já se configura num absurdo – mas, sobretudo pelo preconceito.

É preciso ser pai, ser mãe para compreender tamanho sofrimento. Mas a Igreja Católica, paradoxalmente àquilo que se propõe, acostumou-se a colecionar erros, torturando e realizando julgamentos sumários, conversões forçadas e levando à fogueira.

Em 1992, João Paulo 2º fez um “mea culpa” pela Igreja ao reabilitar o astrônomo italiano Galileu Galilei (1564-1642), condenado, em um total descalabro, à prisão perpétua por defender que a Terra girava em torno do Sol.

A lista de erros da Igreja de Dom Cardoso é extensa e inclui as cruzadas, as iniquidades cometidas contra as mulheres, contra os judeus, e a excomunhão de religiosos reformadores como Calvino e Lutero.

Mas é inacreditável a presunção de DOM SOMBRIO, ao fazer gracinha diante dos canhões das câmeras e dos microfones, e ao considerar o estupro – em relação ao aborto “legal” – uma amenidade.

A mim, só resta imaginar agora esse arcebispo estando – por um momento – na pele da pobre e defenestrada menina, supondo também ele ser igualmente E S T U P R A D O.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Aula de Latim com suíços: “mea culpa”, a imprensa, o “modis operandis” “et coetera”

Foto: Reuters

Primeiramente, quero dizer que a culpa é do Noblat. Isso mesmo, Ricardo Noblat foi quem plantou essa notícia de ataque xenófobo à brasileira na Suíça depois de receber, pelo palm, mensagem de texto do advogado Paulo Oliveira – pai da pernambucana Paula Ventura Oliveira.

Bem..., aí apenas reproduzi. Mas não tenho culpa de nada não. Nem jornalista sou. E minha mulher é testemunha de que tentei entrar em contato com a família dela – a família de Paula, é claro (objetivamente, com o pai – assessor parlamentar de Roberto Magalhães) e com as autoridades suíças para checar as versões, sem sucesso – perguntem a ela (mentira da p...!).

Também, aqui pra nós, quem teria alguma razão para duvidar da versão da moça? Menina bem nascida, como diria a minha avó – bem criada e, embora tímida – articulada, sem antecedentes comprometedores, com vínculo em multinacional que lhe garantia excelente salário..., etc., etc., etc.

Portanto, venho aqui, reconhecer – claro – que fui precipitado (e quem nunca foi?), ao mesmo tempo em que peço desculpas aos “tadinhos” dos skinheads – criaturas tão doces e que nunca na história do mundo esboçaram qualquer atitude antissemita, racista que justificasse pensar em uma política de extermínio de povos não-arianos.

Quero lamentar – de verdade – pela calúnia e difamação levantadas e por acreditar numa tese inverossímil. Por isso, retrato-me desde já – reconhecendo que faço parte de uma civilização atrasada, culturalmente jesuítica, alienada, tupiniquim, tupinambá.

Sei, agora – mais do que nunca, que jamais um grupo tão pacífico, ordeiro e liberal – calcado nos exemplos do bom Hitler, só por capricho ou apenas porque defende uma supremacia racial branca, teria a audácia de violentar alguém de tão exótica etnia ou apenas pela tez miscigenada.

Mil perdões aos cidadãos e ao establishment suíços, pelo incidente diplomático; mil desculpas aos skinheads, pelo embaraço e por aceitarmos que uma menina de 26 anos se automutile só para chamar a atenção, só para cometer a sandice de expor – propositadamente – a IMPRENSA e o seu modis operandis.

Portanto, Heil Hitler!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Robinho, O estuprador

Foto: Sean Dempsey/AP


Kanavillil Rajagopalan – professor de Semântica e Pragmática da Unicamp, costuma dizer que 'designar' e 'caracterizar' são ações indissociáveis, uma vez que a gramática tradicional prega a necessidade de identificar primeiro o sujeito da frase para em seguida predicá-lo. RAJA, como é mais popularmente chamado no meio acadêmico, serve-se, enfim, de exemplo trazido da sintaxe, para apoiar o seu argumento, constituído em amostras por vezes metonímicas, para afirmar ser preciso, primeiro, nomear, para então dizer algo a respeito do objeto no mundo assim designado.


Apoiando-me nos argumentos do indiano, em minhas peripécias – neste campo de estudo da linguagem – busquei lançar um olhar crítico sobre os processos de nomeação impressos pela mídia, refletindo a respeito do discurso jornalístico que, carregado de ideologias discutíveis, tomam partido ao dar uma notícia, caminhando, portanto, na contramão do direito lingüístico e dos princípios éticos que nada têm a ver com generalizações, ideias estereotipadas e tendenciosas.


Medito, então, sobre a necessidade de uma mídia isenta e mais responsável, procurando – no entanto – o nascedouro desse caos da comunicação e da linguagem.


De acordo com o linguista e ativista norte-americano Noam Chomsky, a escola deve começar a oferecer o exemplo para que o eco de sua voz provoque a reflexão e o exercício da ética. Transformar atitudes e burilar condutas não é tarefa fácil e que se proceda em um estalar de dedos, também não deve ser feito de maneira unilateral, porque ensinar exige, segundo Paulo Freire – em sua Pedagogia da Autonomia, disponibilidade para o diálogo. Para ele, o indivíduo que se abre para o mundo e aos outros introduz com seu gesto uma relação dialógica, relação essa, infelizmente, cada vez mais apagada em nossas carteiras escolares.


Por esta razão, é que temos redações abarrotadas de prostitutos da comunicação midiática. A política e o esporte são terrenos férteis que abrigam "profissionais" da linguagem sempre a serviço de interesses pouco republicanos. Chamam Ronaldo Fenômeno – quando sabemos que ele não é tão fenômeno assim. Barack Obama agora personificou-se em messias no dizer da imprensa global. Osama Bin Laden era, a pouco tempo, para nós ocidentais, sinônimo de terror, enquanto para milhares de mulçumanos ele representa Alá com seu poder e justiça.


O texto jornalístico – em grande parte – parece mais uma peça de folclore; deixou, portanto, de assumir as suas reais prerrogativas. No entanto, embalado nesse espírito, para não destoar, até que considero fascinante – para não dizer tentadora – essa possibilidade da escrita, desde que utilizada criativamente e para fins que se distancie da predatória lógica jornalística que tem a comunicação como instrumento para formar opiniões equivocadas e influenciar dolosamente cabeças vazias.


E já que não falei em samba, devo ao menos – ao assumir o compromisso de incorporar designações ao texto – de concluí-lo falando em futebol para dizer que, Garrincha – O anjo das pernas tortas; Nilton Santos – A enciclopédia; o Rei Pelé; Jairzinho – O furacão; Ademir da Guia – O divino; Rivelino – Patada atômica; Zico – Galinho de Quintino; Roberto Dinamite; Dadá Maravilha, Edmundo – O animal; Romário – O gênio da pequena área, entre tantos outros belos jogadores, poderiam formar um time imbatível, seja pela sofisticação e técnica, seja pela alegria e futebol mitológico que convenceram milhares a amar esse esporte.


Mas os tempos são outros, e não há dúvida de que ao lado de Adriano, Kaká e Ronaldinho Gaúcho a bola da vez é Robinho – O estuprador. E nem pensem que aqui é uma alusão maldosa ao escândalo recente com a jovem inglesa em boate de Leeds. Refiro-me mesmo é ao menino da Vila, sacudindo o esqueleto, defenestrando a defesa itálica, chamando Pirlo e Zambrotta para dançar, desvirginando espaços, levando ao êxtase, encaçapando, entrando com bola e tudo.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Governador reinaugura escola: professores com a faca e o queijo na mão. Só falta a fome!

Fotos: Marcelo De Marco

Acabo de chegar da Escola José Joaquim da Silva Filho. Mais conhecida como Polivalente. Lá, na reinauguração, encontrei gente dos mais diversos matizes políticos de nossa cidade. O Secretário de Educação Danilo Cabral deu as boas vindas, reafirmando o compromisso com a melhoria da Educação do Estado. Ante o júbilo, o governador Eduardo Campos fazia graça ao comentar o instante sui generis em que gregos e troianos (leia-se, forças políticas divergentes) – por uma mesma causa – uniam-se para compartilhar o mesmo pão.

A escola, realmente, está um brinco. Espaço para leitura, laboratórios, cantina, auditórios e tudo mais que toda escola – especialmente, a pública – deveria ter. E o Polivalente tem. Dispõe de mobília e instrumentos para estrear o período letivo propiciando o melhor a alunos e professores. É agora, com todas as letras, uma escola de R-E-F-E-R-Ê-N-C-I-A. Não se deve deixar de anotar que tudo isso ocorreu, graças também à luta incessante de sua gestora, professora Vera Marinho – que é dessas mulheres raras..., virada no saco-de-gato!

No entanto, uma coisa me preocupa. É que, apesar de professores e alunos estarem com a faca e o queijo na mão, eles precisam agora do mais importante: precisam de fome! Sem fome, de nada adianta se ter à mesa a melhor comida. É preciso amar o que se faz, ter tesão e ficar-se excitado. É crucial gostar de pessoas – admirando-as com as suas diferenças, hábitos, vícios. É necessário estar-se faminto para aproveitar, inclusive, as sobras do bolo, as – aparentemente, descartáveis – migalhas.

No livro O desejo de ensinar e a arte de aprender, Rubem Alves elogia a capacidade pedagógica de Adélia Prado ao dizer: "Não quero faca nem queijo; quero é fome". Ele próprio, então, endossa: “o comer não começa com o queijo. O comer começa na fome de comer queijo. Se não tenho fome é inútil ter queijo. Mas se tenho fome de queijo e não tenho queijo, eu dou um jeito de arranjar um queijo.”

Lembro-me de ouvir o professor José Edson pelos corredores distribuindo sermões. Eu era pequeno. Devia ter 11, 12, 13 anos. O brado de sua voz ainda, vez ou outra, me ocorre: era feito de ferro bruto, era duro como uma rocha. Estridente! A professora Fátima Costa nunca deixava por menos e com ênclise impecável também dava suas estocadas: – Menino, comporte-se! Quem já se viu coisa assim?! Hummmm!

Os puristas de hoje diriam: Ô pedagogiazinha censurável!

Eu não. Eu digo que esses inesquecíveis mestres provocaram em mim a fome, abriram-me o apetite. Transferiram-me o legado da comilança por conhecimento. Despertaram-me o desejo em ser alguém capaz de fazer a minha própria comida. Eles não arrumavam paliativo para despejar informação, buscavam sim, a cura para mentes anoréxicas, prescreviam despertadores para cérebros adormecidos: propunham o prazer como maior e melhor tecnologia para se alcançar o conhecimento.

Portanto, é só o vírus do funcionalismo público que me preocupa, é só a inércia que me desassossega e a constatação viva de que já, há algum tempo, não vejo alunos e professores sentindo fome, ou sequer tendo saudade de ouvir o bom barulho que, não em estômagos vazios, mas na vida de pessoas esta tal fome provoca.

Veja as fotos!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

LADO A - Para que servem as flores?

Foto: Marcelo De Marco

Senhores! Venho aqui – agora – solidarizar-me e emprestar palavras: a vida não tem sido fácil. Mas quero dizer que, apesar do clima agreste, ainda reside beleza nas cores e o pouco orvalho que cai sobre o campo haverá, com o tempo, de dar brilho às flores – que insossas e desbotadas – passeiam mudas, tristes, arrependidas pelos cantos à procura de migalhas, em busca de um sereno noturno que as pegue. Coitadas!

É que as educaram assim. O antigo ‘dono’ – jardineiro descuidado – aguou-as, pôs húmus, mas não podou os ramos, não desbastou os galhos. Preocupava-se apenas em dizer que tinha um jardim. Jardim de flores vira-latas, flores sem perfume! E quase sempre é assim. Até que vem outro, observa o espaço cultivado e as arranca para dar lugar a plantas, igualmente cães e inodoras, que ele orgulhoso dirá: – fui eu quem plantou!

E entre desplantes, os restos de ramos das tais flores vão fincando os pés nas trincas do meio-fio – fazendo diagramas no chão a todo custo: traçados mirabolantes, arrebentando as calçadas construídas a tanto custo de suor, sol e umidade.

(Plantas moribundas! Não tens o que fazer?)

Mas aí, já época de colheita, o novo jardineiro – agora florista – para ornar sua floresta emprega até papoula, taioba, bananeira, enxertes de erva daninha e capim. Com eles enfeita as salas e as casas, paços e galerias oficiais da cidade. Decora gabinetes e repartições. Transforma-se artista em cultivar raízes, caules, folhas, flores (mesmo as mais definhadas!), pássaros, ovos, tudo. Tudo ele aproveita com afeição e idolatria. É um amor!

Mais tarde, quando terminada a exibição, não restarão bonsais, amostras de lírios, tampouco exemplares do orquidário. Recolher-se-á até moldura de quadro com esboço de planta. Na floricultura não haverá mais nada, nem um vaso molhado para nutrir talos, para alimentar troncos; também não estarão lá as caqueras que sustentaram as hastes, durante a exposição, como se fora um ninho.

Tudo que fora construído e plantado com tanto trabalho – como de hábito, meu Deus! – é, com naturalidade arrancado, esputado, regurgitado, destrutivamente arado. E todos, conformados (alguns vendidos, outros à venda – prestes a serem comprados) dizem: – Besteira! – É assim mesmo! – Na próxima tem mais!

E assim não aproveitam nada. Não tiram lição de nada. Já não se lembram de nada. Sequer assentam uma muda de ideologia no quintal de casa. Não fazem nada para mudar. Não desejam mudar. Preferem a letargia e o oportunismo, nessa dança descabida, a tempestades mais agudas.

Todos dormem pacientes.

E depois..., com o pires cheio de lágrimas fazem, cada um, a sua tempestadezinha: esmolando, aguando os cílios.

Embriagados de cantilenas ficam à procura de abrigo, de um porto seguro que ofereça cama, comida, roupa lavada e se possível um arbusto que lhe conceda sombra e água fresca para suster caprichos e conservar os mesmos modos. Para isso, repetem a costumeira, cretina e infalível fórmula da adulação, e como trepadeiras, apóiam-se – sonsos, sorrateiros, incompetentes – nos malditos galhos da árvore execrável do FISIOLOGISMO.