Foto: Letícia Gomes
Semeador de esperança
A escola, desde muito cedo, representou para mim o espaço para a realização. Era lá onde eu me manifestava, me divertia. Era entre os intervalos que eu escrevia bilhetes com palavras temperadas a gosto: peixe sem espinha, emoções agudas. No dia em que não tinha aula eu ficava melancólico, sorumbático, macambúzio, vagando..., sem nada para fazer; e, numa família de evangélicos xiitas, o pior: sem direito a uma TV para assistir à minha série favorita: Jaspion. Ler era, então, o meu refúgio, era o meu escape. E eu fugia...
Acho que preciso aqui retificar algo, porque confesso que peguei pesado. Meus avós não eram tão autocráticos assim. Meu velho e querido avô, quando estava na cozinha combinando frutas para o seu famoso e indecifrável suco - que tão pretensiosamente chamava sorvete – era de fazer concessões: eu então colava figurinhas, jogava pião com os poucos amigos, brincava de carro, perturbava preces: andava de carrinho de rolimã..., ah!..., quanta saudade: aquela brisa na cara, naquelas ruas estreitas.
Eu também tinha um rádio, velho, e de pilha. Era dele que eu tirava as novidades do esporte. E sem filtrar as hipérboles e os comentários espalhafatosos, imaginava Romário – meu jogador favorito – produzindo aquele elástico, desenhando cambalhotas no ar, vixe!... parindo um gol de bicicleta. Como era bom. E eu conjeturava. Construía estórias. Essas lembranças me levam a concluir o quanto perdi com o advento da tecnologia das TVs de plasma e com a automaticidade da internet.
Hoje, tudo é ali – na hora, e com toda a nitidez...
Mal acostumado – vejam só – já não fabrico mais estórias.
O sábado e o domingo voam.
Na segunda, a volta à rotina. Duas de História, uma de Religião, uma de OSPB... a última era de Gramática. Espera aí... Gramática não, Português. Para mim, era justamente naquela última aula do dia em que começávamos a semana. Era uma aula aguardada! Instante ímpar: degustação de palavras. Aquela professora tão carrancuda e tão econômica agora abria o livro de Mesquita & Cloder Rivas Martos para sortear o leitor do dia, pela caderneta:
– 18!
– Presente, professora!
– Leitura. Página 106. Unidade 11.
Não se ouvia um grilo.
E com fome, pelo fim da manhã, eu viajava... quando nem sonhava ensinar um dia Português.
Entretanto, inoportunamente, no melhor, o toque estridente e pontual dava cabo ao meu dia na escola.
Contrariado, ajeitava a bolsa, onde guardava os livros com cuidado para não machucá-los.
Me despedia irresoluto da sala e voltava remoendo Diaféria, Lispector, Colasanti, Machado... M-A-N-D-R-Á-G-O-R-A-S!
Já no rumo de casa, eu jogava pedras, quebrava paus, chutava baldes, esmigalhava gravetos, fazia o diabo..., pintava miséria; por diversão e canalhice – que só agora julgo inocentes – apertava campanhias em pleno inverno e horário de almoço, e corria; me escondia nas esquinas; seguia atalhos. E para encurtar ainda mais o caminho, à beira da estrada pedia bigu, esperava carona e, muitas vezes, o momento certo de amorcegar camionetes, e até veículos pesados: brincava de menino.
Alguns prenunciavam:
– Esse não vai dar pra nada.
Outros diziam:
– Olha que trombadinha! Que maloca! Cuidado! É um perigo!
Mas, nostradamus também erra.
E para provar, vejam (com os próprios olhos): todas as manhãs têm sido claras, e o dia – embora ensolarado – perfeito a esse trabalho árduo de ourives que – da morfologia à sintaxe, do estilo à semântica – recruta leitores; e aí então costura, aninha, cultiva palavras: semeia esperança.

