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sábado, 17 de outubro de 2009

Prestação de contas, Bienal

Foto: Marcelo De Marco

O Governo do Estado repassou, em forma de bônus, a todos os professores da rede, R$ 200 para compras na VII Bienal Internacional do Livro de Pernambuco (dinheiro do Fundeb). Sem correção, o valor foi o mesmo concedido na edição anterior, em 2007. A diferença foi a ajuda de custo: R$ 108.

Eis, abaixo, a minha compra:

+ A menina marca-texto, de Izabela Domingues (Calibán Editora);
+ As cores do tempo, de Majela Colares (Calibán Editora);
+ As filhas de Lilith, de Cida Pedrosa (Calibán Editora);
+ A última do Português - Cartilha das novas regras do Acordo Ortográfico (Cepe Editora);
+ Comedoria popular - receitas, feiras e mercados do Recife, de Ana Cláudia Frazão (Brascolor);
+ Expressões e termos latinos para juristas, de Jorge Nogueira de Lima Neto (Martins Fontes);
+ Lições de Gramática em versos de cordel, de Janduhi Dantas (Editora Vozes);
+ Minha primeira biblioteca (Larousse);
+ O bebê urso - meu livro favorito de histórias (Ciranda Cultural);
+ O poliedro da crítica, de Fábio Lucas (Editora Calibán);
+ Pernambucânia - o que há nos nomes das nossas cidades, de Homero Fonseca (Cepe Editorial);

O critério para as escolhas foi simples: como sou afixionado por poesia, quis ornar a minha estante com nomes da cena literária contemporânea: os pernambucanos Colares e Cida. Já Fábio Lucas representa uma voz corrente no campo da Teoria Literária. Outros títulos têm a ver com uma combinação que aprisiona qualquer leitor: edição limitada, ou seja, escassez nas livrarias, assim como a abordagem de temas relacionados à rica cultura pernambucana, especialmente no item "culinária".

Recomendo todos!

domingo, 11 de outubro de 2009

Muribeca, na Bienal

Foto: Marcelo De Marco

Lixo? Lixo serve pra tudo. A gente encontra a mobília da casa, cadeira pra pôr uns pregos e ajeitar, sentar. Lixo pra poder ter sofá, costurado, cama, colchão. Até televisão. É a vida da gente o lixão. E por que é que agora querem tirar ele da gente? O que é que eu vou dizer pras crianças? Que não tem mais brinquedo? Que acabou o calçado? Que não tem mais história, livro, desenho? E o meu marido, o que vai fazer? Nada? Como ele vai viver sem as garrafas, sem as latas, sem as caixas? Vai perambular pela rua, roubar pra comer? E o que eu vou cozinhar agora? Onde vou procurar tomate, alho, cebola? Com que dinheiro vou fazer sopa, vou fazer caldo, vou inventar farofa?

Fale, fale. Explique o que é que a gente vai fazer da vida? O que a gente vai fazer da vida? Não pense que é fácil. Nem remédio pra dor de cabeça eu tenho. Como vou me curar quando me der uma dor no estômago, uma coceira, uma caganeira? Vá, me fale, me diga, me aconselhe. Onde vou encontrar tanto remédio bom? E esparadrapo e band-aid e seringa?

O povo do governo devia pensar três vezes antes de fazer isso com chefe de família. Vai ver que eles tão de olho nessa merda aqui. Nesse terreno. Vai ver que eles perderam alguma coisa. É. Se perderam, a gente acha. A gente cata. A gente encontra. Até bilhete de loteria, lembro, teve gente que achou. Vai ver que é isso, coisa da Caixa Econômica. Vai ver que é isso, descobriram que lixo dá lucro, que pode dar sorte, que é luxo, que lixo tem valor.

Por exemplo, onde a gente vai morar, é? Onde a gente vai morar? Aqueles barracos, tudo ali em volta do lixão, quem é que vai levantar? Você, o governador? Não. Esse negócio de prometer casa que a gente não pode pagar é balela, é conversa pra boi morto. Eles jogam a gente é num esgoto. Pr’onde vão os coitados desses urubus? A cachorra, o cachorro?

Você precisa ver. Isso tudo aqui é uma festa. Os meninos, as meninas naquele alvoroço, pulando em cima de arroz, feijão. Ajudando a escolher. A gente já conhece o que é bom de longe, só pela cara do caminhão. Tem uns que vêm direto de supermercado, açougue. Que dia na vida a gente vai conseguir carne tão barata? Bisteca, filé, chã-de-dentro - o moço tá servido? A moça?

Os motoristas já conhecem a gente. Têm uns que até guardam com eles a melhor parte. É coisa muito boa, desperdiçada. Tanto povo que compra o que não gasta - roupa nova, véu, grinalda. Minha filha já vestiu um vestido de noiva, até a aliança a gente encontrou aqui, num corpo. É. Vem parar muito homem morto, muito criminoso. A gente já tá acostumado. Quase toda semana o camburão da polícia deixa seu lixo aqui, depositado. Balas, revólver 38. A gente não tem medo, moço. A gente é só ficar calado.

Agora, o que deu na cabeça desse povo? A gente nunca deu trabalho. A gente não quer nada deles que não esteja aqui jogado, rasgado, atirado. A gente não quer outra coisa senão esse lixão pra viver. Esse lixão para morrer, ser enterrado. Pra criar os nossos filhos, ensinar o nosso ofício, dar de comer. Pra continuar na graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não faltar brinquedo, comida, trabalho.

Não, eles nunca vão tirar a gente deste lixão. Tenho fé em Deus, com a ajuda de Deus eles nunca vão tirar a gente deste lixo. Eles dizem que sim, que vão. Mas não acredito. Eles nunca vão conseguir tirar a gente deste paraíso.
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"Muribeca" é um dos contos do livro "Angu de Sangue", publicado pela Ateliê Editorial no ano 2000.

Marcelino Freire nasceu em 20 de março de 1967 na cidade de Sertânia, Sertão de Pernambuco. Vive em São Paulo desde 1991. É autor de EraOdito (Aforismos, 2ª edição, 2002), Angu de Sangue (Contos, 2000) e BaléRalé (Contos, 2003) publicados pela Ateliê Editorial. Em 2002, idealizou e editou a Coleção 5 Minutinhos, inaugurando com ela o selo eraOdito editOra. É um dos editores da PS:SP, revista de prosa lançada em maio de 2003, e um dos contistas em destaque nas antologias Geração 90 (2001) e Os Transgressores (2003), publicadas pela Boitempo. Publicou também, pela Editora Record, Contos Negreiros (2005), obra que lhe rendeu o Prêmio Jabuti de Literatura, categoria Contos, edição 2006. Seu livro mais recente é Rasif: mar que arrebenta (Contos, 2008), também pela Record.

Que só BaléRalé

Marcelo De Marco, Marcelino Freire e Miró

Falei que Miró era intrometido. Intrometido mesmo sou eu. Intrometido e amostrado. Imaginem vocês que presunção - a minha: ladear duas das mentes mais criativas da nossa literatura contemporânea. Conheci a obra de Marcelino Freire só recemente, em 2004... 2005, por indicação de Walther (Moreira Santos). Em 2007 levei para sala de aula um de seus mais belos textos: Muribeca (ácido puro).

Ontém, o autor de Angu de Sangue - cheio de pilhéria, leu trechos de BaléRalé - livro de contos lançado em maio de 2003, e arrematou risos. Já Miró - esse mascate no melhor sentido - apresentava, alardeava e promovia produção da Cabra Quente Filmes, direção e roteiro de Wilson Freire, baseada em obra homônima de um poeta da peste: Miró - preto, pobre, poeta e periférico.

Na Bienal eu encontrei Miró

Fotografia: Marcelo De Marco

Encontrei Miró segurando uma latinha de cerveja lá no Café Cultural da Fafire. Quando me viu, deu-me um abraço cheirando à cachaça e poesia: sinestesia da melhor espécie. Como bom pregador de palavras, ofereceu-me Onde estará a norma?, vídeo-documentário que registra a obra dele mesmo - um dos mais importantes poetas do movimento de poesia marginal do Recife.

Miró - intrometido como sempre - veio de Muribeca para apartear Marcelino Freire - contista de primeira ordem, que falava sobre coisas, como sexualidade alternativa, mas que distraiu-se enquanto agarrava o microfone. Provocador e performático, Miró preteriu essa tecnologia fálica. Desferiu então, cuspindo a platéia com orvalho e éter:

"Preto, pobre, poeta e periférico: puta que pariu!"